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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Torre de Babel

Aqui conhecemos tanta gente, e tão diferente.
Os conceitos de religião, arte, amor, sexo, amizade, política, culinária, economia, feminismo, capitalismo (e outros ismos) são uma amálgama, e a sensação que me dá é a de que a verdade, essa, reside algures no meio da torre de Babel.

Dizia um amigo, daqueles que guardamos para sempre - "viver fora do ter mundo dificilmente muda a pessoa que tu és, mas mostra-te quão amplos os teus horizontes podem ser". E esta frase para mim foi um destino, que repito cada vez que estou num capítulo destes.

A verdade é que para sermos aceites ou queridos, num mundo onde cada um fala a sua língua, ninguém nos pede que mudemos a nossa opinião ou que dispamos as nossas bandeiras. A única coisa que se pede é bom senso, tolerância, saber escutar - porque de facto nunca sabemos se a nossa verdade é mais verdadeira do que as outras.

E escutar, ou perceber, ou empatizar, não tem de todo a ver com perder uma identidade.
Tem muito mais a ver com consolidá-la, ampliá-la, entendê-la - de saber antes de mais que uma identidade é uma escolha permanente, e não apenas um legado.

Respeitar as nossas convicções, antes de mais, é saber que temos o direito de escolha sobre elas. Como, aliás, em tudo o resto.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


"Eu não tenho vergonha dos meus sonhos, nem vergonha de admitir que corri tanto quanto podia atrás deles. Não tenho vergonha dos insucessos nem da frustração de quanto não consegui.
E acima de tudo não quero que me venham com histórias de culpa ou de egoísmo - eu não magoei ninguém, e se tracei o meu caminho atrás do que queria, foi apenas para ser fiel a mim próprio.

E a melhor recompensa é olhar para trás e ver que fiz da minha vida aquilo que eu gostava que ela tivesse sido."


[E eu fiquei sem resposta.
As palavras dele faziam mesmo sentido,
e eu não pude conter a vontade de o abraçar.
É que, na força das palavras,
as pessoas ganham mesmo uma nova luz .]

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Par ici ou par là?"

Partir. Voltar.
As pessoas que ficam. E as pessoas que chegam.
Com espaços complementares, acrescentados ao vazio que não sabíamos que existia.

As decisões difíceis, impensadas, subitamente descobertas.
O horizonte aberto das opções. A responsabilidade da escolha. O medo do remorso, o medo do próprio medo, das suas limitações e, pior do que tudo, das suas consequências.

Ficar no limbo. Querer um bocadinho dos dois mundos. Querer um mundo que não existe, onde encaixassem ambos assim, completos, perfeitos.

Descobrir que ninguém dá os passos sem dor, e que a coragem está muito longe da insconciência - e bem mais próxima da ambivalência de um medo que é quase tão forte como ela, apenas um bocadinho infinitesimal menos intenso. E, por isso, não existe outra opção senão levá-los a ambos, lado a lado, na mesma bagagem.

Querer um mundo novo, resgatar uma esperança pueril de sonho, de poesia, de romance, que sabemos nossos mas que os dias nos fizeram esquecer. É que afinal, é possível - e quase parece fácil - a vida ser assim.

E, no fim disto tudo, achávamos que isto facilitava as coisas.
Que ser feliz é uma coisa plena, sem questões, sem mas.
Naïves.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A correr

{com o devido desconto de uma generalização}
[Dizíamos que nós, tugas, temos um grande plano para a nossa vida. Achamos que as nossas decisões nos definem ad aeternum. Que quando escolhemos um percurso profissional é para a vida. Que é inquestionável perdermos um ano inteiro, como os estudantes nórdicos fazem - para passear, conhecer uma cultura diferente, arranjar um emprego para pagar a ousadia e a experiência. Nós, tugas, gostamos do nosso cantinho...]

E acho também que gostamos da sensação de estar a correr para algum lado, de estarmos encaminhados, de não termos que pensar bem no próximo passo. Corremos para entrar na faculdade. Para acabar o curso. Para arranjar emprego. Para escolher a especialidade. Para tantos outros projectos pessoais.
Corremos porque é a meta seguinte, o próximo passo, o caminho previsto e previsível.
Corremos às vezes sem saber porquê - apenas porque é suposto, mesmo que nem sequer pensemos a fundo nisso. Corremos para ali porque toda a gente corre, porque nos dizem que sim e, às vezes, convencem-nos.


[Parar para pensar. Para questionar as decisões.
Para pôr novas hipóteses.
Para ter o vazio. Para pensar que as opções são infinitas.
Para acreditar que se calhar somos capazes.
Como todos os outros , não é difícil.
Boas surpresas acontecem quando deixamos as portas abertas
e, com sorte, descobrimos o caminho que não sabíamos ter à nossa espera.]

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

The end of our nose {franceses inspirados}

Traveling through the world produces
a marvelous clarity in the judgment of men.
We are all of us confined and enclosed within ourselves,
and see no farther than the end of our nose.

This great world is a mirror where we
must see ourselves in order to know ourselves.

There are so many different tempers,
so many different points of view,
judgments, opinions, laws and customs
to teach us to judge wisely on our own,
and to teach our judgment to recognize
its imperfection and natural weakness.

Michel de Montaigne (filósofo e escritor francês)



[E nós que, para lá de toda a diferença, somos no fundo somos tão iguais:
queremos o mundo inteiro, a doçura do sonho, a inocência da esperança, a intensidade da vida - ou talvez um ideal romântico e naïf destas bandeiras, que já não saberíamos largar.

Mas apenas para os colher pelo caminho e os levar de volta para os braços onde deixamos esquecido o coração, à nossa espera.

Para partir de novo?
Sim, quem sabe - há vícios que se nos entranham sem sabermos onde termina a nossa vontade.
Mas sempre com os olhos postos no próximo regresso, mesmo que não o definitivo.]

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Vender flores {conversas giras}


"As pessoas acham que podemos dar, dar, dar - e que a nossa capacidade de sobreviver não se esgota. Eu andei todos estes anos a dar muito, e só precisava de paz, de um sítio novo, de me esquecer de mim.

Preciso de me encontrar outra vez, para ser eu própria de novo, para recarregar as baterias - para depois ser capaz de dar tudo outra vez.

Por isso quando me perguntam o que quero fazer, só sei que quero fazer uma coisa diferente. Não quero ouvir os problemas dos outros e fazer de conta que eles não me afectam, porque é o meu trabalho e a vida continua. Não quero enganar-me e fazer de conta que as coisas passam por mim e não deixam marcas, porque as marcas estão cá mesmo quando eu não as vejo.

O que eu gostava era de trabalhar numa loja, com todo o tempo do mundo para pensar, vender flores em Paris."